domingo, 8 de julho de 2012

Amor q não se impõe

"Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer."
Clarice Lispector

Busca de respostas



Passei um bom tempo procurando respostas fora de mim. Mas espantosamente, as respostas estavam aqui dentro. Não sei por que demorei tanto tempo. Acho que encantada demais com o mundo lá fora, eu deixei secar alguns jardins dentro de mim. Alguns, confesso, eu até encharquei de tanto aguar.
Viver é raro. Amar ainda mais. Sofrer é como cerveja. A gente encontra em qualquer bar. Às vezes, ele é tã
o sedutor (o sofrimento), que a gente acaba se acostumando. Centralizamos a dor e então começam todas as buscas. Buscamos em lugares errados, em lugares fictícios, lugares de poucas verdades. É como se pra viver, a gente precisasse encontrar algo. Mas na verdade, pra viver, a gente precisa é ser encontrado.
Encontrado por alguém, por algo, por um certo ou por um errado. Encontrado nos dias de pileque, nos dias de trabalho, nos dias de sol e principalmente, nos dias de tempestade. Mas, ser encontrado num mundo em que todos buscam de olhos vedados algo que nem sabe o que é, torna-se um pouco impossível. Um pouco, porque aqui e acolá eu vejo gente sendo encontrada. E isso me enche de esperança, me enche de vontade de ser encontrada também.
Mas como ia falando, eu encontrei tudo/nada aqui dentro. Encontrei que preciso ser encontrado, e mesmo assim a solução continua vinda de fora. Quando é que poderei finalmente, sentir-me, de todo jeito, e em qualquer circunstância, completo e independente? É muita loucura. Precisa-se de muita auto-ajuda. De muitos Augustos Cury, de muitos best sellers, de muito chocolate, de muito filme e pipoca.
A gente encontra sei lá, numa ficção qualquer, a resposta prontinha. A gente se engana sei lá, comprando aquele livro que nunca vai ler. A gente finge um sei lá, acho que sou feliz assim, e a noite, reza pedindo alguém ou algo. O mundo moderno tem suas consequências, e dentre elas, eis a mais prejudicial à saúde: a busca de algo qualquer. A busca de um algo que sequer sabemos o que é. Vive, vivo, vivemos buscando.
Pior é que a gente encontra rapidamente, se perde e precisa se encontrar algo novo. Efêmero. Sagaz. Sutil. Leviano. Vender. Comprar. Bancar. O que te sobra, além disso, tudo? O que te sobre além do que te obrigam à aceitar e por fim às vezes, desejar também.

Texto 
enviado por Irineia Lobo.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Pequenas Coisas Fazem Grande Diferença





"Para cada atitude tomada existe a consequência - uma ordem em sequência, uma serial que pode ser benéfico ou não. Vivemos em uma série de atitudes a pensar e cada uma que é tomada ou deixada de tomar compõe um elo. Agimos muitas vezes por instinto ou por necessidade, mas cada coisa tem hora e tempo determinado. Não se adianta o tempo em favor a nós e não se pode atrasar pelo mesmo motivo.

O querer algo é uma imensidão de erros e acertos, só sabemos se erramos ou acertamos quando decidimos; é preciso sempre decidir, ao negarmos decisão empatamos o tempo de correr no seu percurso exato e o tentar mudar algo pode levar a sequência indesejada de fatos que levarão a outros erros, até que consertemos; pode demorar até que tudo entre nos eixos, os erros cometidos podem fazer-nos atravessar muitas dificuldades até que tudo seja consertado.."

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Amor Próprio

Dizei-me por obséquio: um homem que odeia a si mesmo poderá, acaso, amar alguém? Um homem que discorda de si mesmo poderá, acaso, concordar com outro? Será capaz de inspirar alegria aos outros quem tem em si mesmo a aflição e o tédio? Só um louco, mais louco ainda do que a própria Loucura, admitireis que possa sustentar a afirmativa de tal opinião. Ora, se me excluirdes da sociedade, não só o homem se tornará intolerável ao homem, como também, toda vez que olhar para dentro de si, não poderá deixar de experimentar o desgosto de ser o que é, de se achar aos próprios olhos imundo e disforme, e, por conseguinte, de odiar a si mesmo. A natureza, que em muitas coisas é mais madrasta do que mãe, imprimiu nos homens, sobretudo nos mais sensatos, uma fatal inclinação no sentido de cada qual não se contentar com o que tem, admirando e almejando o que não possui: daí o fato de todos os bens, todos os prazeres, todas as belezas da vida se corromperem e reduzirem a nada. Que adianta um rosto bonito, que é o melhor presente que podem fazer os deuses imortais, quando contaminado pelo mau cheiro? De que serve a juventude, quando corrompida pelo veneno de uma hipocondria senil? Como, finalmente, podereis agir em todos os deveres da vida, quer no que diz respeito aos outros, quer a vós mesmos, como, — repito — podereis agir com decoro (pois que agir com decoro constitui o artifício e a base principal de toda ação), se não fordes auxiliados por esse amor próprio que vedes à minha direita e que merecidamente me faz as vezes de irmã, não hesitando em tomar sempre o meu partido em qualquer desavença? Vivendo sob a sua proteção, ficais encantados pela excelência do vosso mérito e vos apaixonais por vossas exímias qualidades, o que vos proporciona a vantagem de alcançardes o supremo grau de loucura. Mais uma vez repito: se vos desgostais de vós mesmos, persuadi-vos de que nada podereis fazer de belo, de gracioso, de decente. Roubada à vida essa alma, languesce o orador em sua declamação, inspira piedade o músico com suas notas e seu compasso, ver-se-á o cômico vaiado em seu papel, provocarão o riso o poeta e as suas musas, o melhor pintor não conquistará senão críticas e desprezo, morrerá de fome o médico com todas as suas receitas, em suma Nereu aparecerá como Tersites, Faão como Nestor, Minerva como uma porca, o eloqüente como um menino, o civilizado como um bronco. Portanto, é necessário que cada qual lisonjeie e adule a si mesmo, fazendo a si mesmo uma boa coleção de elogios, em lugar de ambicionar os de outrem. Finalmente, a felicidade consiste, sobretudo, em se querer ser o que se é. Ora, só o divino amor próprio pode conceder tamanho bem. Em virtude do amor próprio, cada qual está contente com seu aspecto, com seu talento, com sua família, com seu emprego, com sua profissão, com seu país, de forma que nem os irlandeses desejariam ser italianos, nem os trácios atenienses, nem os citas habitantes das ilhas Fortunadas. Oh surpreendente providência da natureza! Em meio a uma infinita variedade de coisas, ela soube pôr tudo no mesmo nível. E, se não se mostrou avara na concessão de dons aos seus filhos, mais pródiga se revelou ainda ao conceder-lhes o amor próprio. Que direi dos seus dons? É uma pergunta tola. Com efeito, não será o amor próprio o maior de todos os bens?

Erasmo de Rotterdam